terça-feira, 5 de junho de 2012




A Senhora das Castanhas

“Venho para aqui por gosto...é o que me faz feliz!

Na Avenida Central de Braga, o mesmo Sol de que a Dona Felisbela se tenta proteger debaixo de toldes, chama a atenção para si e para a sua banca. A bijuteria reluz, numa sexta-feira ensolarada e de calor.
Com a boa disposição que tão bem a caracteriza, a vendedora confessa que gosta de partilharas histórias e ser reconhecida. Sem formalismos, a entrevista parece uma amena conversa entre pessoas que já se conhecem há muito tempo.
Assim é a Dona Felisbela, simpática e acolhedora com os seus 81 anos de pura vitalidade, que se reflectem na actividade profissional que ainda desempenha. A venda de castanhas no Inverno e de bijuterias nos restantes meses do ano ocupa-lhe a vida. Conhecida por todos como “A Senhora das Castanhas”, mantém vigorosamente o seu posto de venda na Avenida Central de Braga há 15 anos.
Na verdade, não se vê a fazer mais nada na vida: “é isto que me faz feliz”. Por essa razão, ainda que o negócio se tenha ressentido com a crise, Felisbela não hesita em afirmar que só abandonará o que faz quando falecer.
Mesmo quando está a chover, cenário normal no Inverno bracarense, a “senhora das castanhas” sai de casa em direcção ao seu posto de trabalho. Fá-lo puramente pelo gozo que lhe dá, pois não ganha muito com a actividade: “dá para o café e pouco mais”.
Desde os 27 anos que se dedica à “venda”, desde a fruta aos doces, das castanhas à bijuteria. Habituou-se desde cedo ao carinho das pessoas e já é algo de que não prescinde. As pessoas, a atenção e o reconhecimento que estas lhe dão são a sua força. Felisbela conta, com orgulho, que já tirou fotografias com Bárbara Guimarães e que as duas estiveram “a conversar um par de minutos”. E são muitos os que a interpelam para o mesmo. Apesar disto, ainda acalenta o desejo de ir à televisão para contar as suas histórias.
Os anos de trabalho na Avenida Central proporcionaram a Felisbela relações de amizade com os demais comerciantes da zona. Há dois aspectos importantes que destaca: a amizade e a camaradagem. “Eles guardam-me as coisas, são muito meus amigos”, conclui.
No alto posto que a idade lhe confere, a “senhora das castanhas” afirma que é muito respeitada por todos, especialmente pelos sem-abrigo, dizendo que nem permite que lhe “refutem cachimbo”, isto é, que lhe refilem.


 




“Tenho 11 filhos e 20 netos…Qual deles o mais lindo!”

A octogenária tem ainda uma rotina muito atarefada. A sua jornada de trabalho começa por volta das dez horas da manhã e só termina ao fim do dia. Diz-se disponível para o cliente durante todo este tempo e acrescenta que adora o contacto com os jovens, com quem gosta de conversar. Talvez por isso o seu espaço favorito na cidade, embora salientado que tudo é especial, seja o café A Brasileira: “é um ambiente bonito, gosto muito de estar na esplanada a observar as pessoas e a energia da juventude”.
Mãe de 11 filhos e avó de 20 netos, de quem fala com muito amor e orgulho, interrogando-se sobre “qual deles o mais lindo”, a comerciante diz que conta com o apoio de todos para prosseguir com o negócio. Embora se assuma como uma senhora autónoma, vive com uma das filhas e aceita a ajuda de outro dos seus filhos, Francisco, na actividade das vendas.
Felisbela exprime toda a sua vontade de viver. Quer experimentar “muitas coisas, novas vivências… novos sabores”, diz, entre gargalhadas, olhando a geladaria em frente. É este discurso enérgico, informal e divertido que caracteriza “A Senhora das Castanhas”, encantadora, trabalhadora e com uma fúria de se manter activa aos 81 anos.



Adriana Correia
Liliana Moreira

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