A Senhora
das Castanhas
Na
Avenida Central de Braga, o mesmo Sol de que a Dona Felisbela se tenta proteger
debaixo de toldes, chama a atenção para si e para a sua banca. A bijuteria
reluz, numa sexta-feira ensolarada e de calor.
Com
a boa disposição que tão bem a caracteriza, a vendedora confessa que gosta de
partilharas histórias e ser reconhecida. Sem formalismos, a entrevista parece uma
amena conversa entre pessoas que já se conhecem há muito tempo.
Assim
é a Dona Felisbela, simpática e acolhedora com os seus 81 anos de pura
vitalidade, que se reflectem na actividade profissional que ainda desempenha. A
venda de castanhas no Inverno e de bijuterias nos restantes meses do ano ocupa-lhe
a vida. Conhecida por todos como “A Senhora das Castanhas”, mantém vigorosamente
o seu posto de venda na Avenida Central de Braga há 15 anos.
Na
verdade, não se vê a fazer mais nada na vida: “é isto que me faz feliz”. Por
essa razão, ainda que o negócio se tenha ressentido com a crise, Felisbela não
hesita em afirmar que só abandonará o que faz quando falecer.
Mesmo
quando está a chover, cenário normal no Inverno bracarense, a “senhora das
castanhas” sai de casa em direcção ao seu posto de trabalho. Fá-lo puramente
pelo gozo que lhe dá, pois não ganha muito com a actividade: “dá para o café e
pouco mais”.
Desde
os 27 anos que se dedica à “venda”, desde a fruta aos doces, das castanhas à
bijuteria. Habituou-se desde cedo ao carinho das pessoas e já é algo de que não
prescinde. As pessoas, a atenção e o reconhecimento que estas lhe dão são a sua
força. Felisbela conta, com orgulho, que já tirou fotografias com Bárbara
Guimarães e que as duas estiveram “a conversar um par de minutos”. E são muitos
os que a interpelam para o mesmo. Apesar disto, ainda acalenta o desejo de ir à
televisão para contar as suas histórias.
Os
anos de trabalho na Avenida Central proporcionaram a Felisbela relações de
amizade com os demais comerciantes da zona. Há dois aspectos importantes que
destaca: a amizade e a camaradagem. “Eles guardam-me as coisas, são muito meus
amigos”, conclui.
No
alto posto que a idade lhe confere, a “senhora das castanhas” afirma que é
muito respeitada por todos, especialmente pelos sem-abrigo, dizendo que nem
permite que lhe “refutem cachimbo”, isto é, que lhe refilem.
“Tenho 11 filhos e 20 netos…Qual deles o mais lindo!”
A
octogenária tem ainda uma rotina muito atarefada. A sua jornada de trabalho começa
por volta das dez horas da manhã e só termina ao fim do dia. Diz-se disponível
para o cliente durante todo este tempo e acrescenta que adora o contacto com os
jovens, com quem gosta de conversar. Talvez por isso o seu espaço favorito na
cidade, embora salientado que tudo é especial, seja o café A Brasileira: “é um
ambiente bonito, gosto muito de estar na esplanada a observar as pessoas e a
energia da juventude”.
Mãe
de 11 filhos e avó de 20 netos, de quem fala com muito amor e orgulho,
interrogando-se sobre “qual deles o mais lindo”, a comerciante diz que conta
com o apoio de todos para prosseguir com o negócio. Embora se assuma como uma
senhora autónoma, vive com uma das filhas e aceita a ajuda de outro dos seus
filhos, Francisco, na actividade das vendas.
Felisbela
exprime toda a sua vontade de viver. Quer experimentar “muitas coisas, novas
vivências… novos sabores”, diz, entre gargalhadas, olhando a geladaria em
frente. É este discurso enérgico, informal e divertido que caracteriza “A
Senhora das Castanhas”, encantadora, trabalhadora e com uma fúria de se manter activa
aos 81 anos.
Adriana Correia
Liliana Moreira
Nenhum comentário:
Postar um comentário