quinta-feira, 31 de maio de 2012



MELINHA

A mascote do S.C. Braga

Na pastelaria Cabanelas, na Rua dos Chãos, em Braga, encontramos aquela que é considerada a mascote do Braga, conhecida e adorada por todos como a Melinha. Às dezasseis horas não foi difícil encontrá-la sentada numa mesa ao fundo do café. Como nunca é, já que o penteado elaborado a seu gosto a torna inconfundível.
Faz-se acompanhar da sua irmã e recebe-nos com um sorriso, demonstrando a sua boa disposição e alegria, que lhe são características desde o primeiro segundo.
Numa mesa mais afastada das restantes pessoas que lancham no café, Melinha apressa-se a mostrar o que trouxe por iniciativa própria. São imensas as camisolas, aventais e lenços estampados com o nome do seu “Clube do Coração”, palavras de apoio e imagens dos seus jogadores. Ainda mais especial é o facto de tudo ter sido feito e imaginado por si.
Consigo traz ainda algumas das centenas de fotografias que guarda com carinho, já que a fazem recordar momentos únicos da sua vida. Entre as fotos contam-se histórias de viagens que fez, figuras públicas que conheceu, festas e jogos de que fez parte, sempre acompanhando aquilo que a faz mais feliz: “O Meu Braga”.
Por fim, Melinha exibe uma chuteira oferecida por um jogador do Braga, que vai pôr à venda: “Quem der mais fica com ela, e o dinheiro vai para uma instituição de solidariedade”.
A paixão que nutre pelo S.C. de Braga vem desde que se lembra: “Sempre Braga! Até morrer! É o meu clube, a minha cidade, o meu berço!”.
 Madeira, Sevilha, Escócia, Polónia, Sérvia, Londres… são alguns dos muitos lugares que já visitou a acompanhar a equipa. São imensas as histórias que nos podia contar das suas viagens. No entanto, fala da festa que é sempre feita, dos passeios, das fotografias que tira, do calor das pessoas que conhece, de cantar pelo Braga, do espírito do futebol, das palavras novas que vai aprendendo noutras línguas: “é um riso”, diz Melinha.
Não falta a um jogo do S.C. Braga, tem a sua cadeira reservada, que fica sempre devidamente decorada com bandeiras e camisolas. Mesmo que chova ou esteja frio, “eu vou na mesma! Levo um cobertor comigo.”
Canta, dança, pula, vibra com o jogo, comenta, relata… No fundo, anima todos à sua volta e nunca teme pela sua segurança. Sabe que a respeitam e que gostam dela, tanto os adeptos como os próprios jogadores: “Eles mimam-me muito! Pegam em mim ao colo, cantam comigo… gosto muito de todos!”.
As pessoas já estão habituadas a ver a adepta bracarense na televisão e, quando não pode ir aos jogos, ligam-lhe a dizer que o Braga vai perder: “Dizem que sou o amuleto da sorte”.
Melinha emociona-se quando fala do carinho que as pessoas nutrem por ela: “Tenho sido acarinhada por toda a gente na rua: crianças, estrangeiros, toda a gente que passa por Braga, todos falam para mim, cantam, põem-se à minha volta… Lido bem com o facto de ser reconhecida. Aliás, dá-me gozo!” 



“A minha alegria é ver o Braga campeão”

Viúva e sem filhos, natural da Ponte de S. João, Melinha dedica o seu tempo ao S.C. de Braga, este que é a sua verdadeira paixão, o que lhe dá força e alegria!
Considera-se uma mulher cheia de genica: “As pessoas dizem-me “Salta Melinha, Salta!”, e eu salto, pincho, danço e canto com eles!”. Para nos provar essa força interior, põe-se de pé e mostra-nos a elasticidade de uma senhora que já conta 76 anos de vida. “O importante é nunca parar!”.
Durante a sua vida foi industrial, fazia carteiras, porta-moedas… mas nunca deixou de acompanhar o seu clube.
Hoje, reformada, ocupa o seu tempo livre das mais variadas formas. “Vou rezar para a igreja; passeio pela cidade; vejo as montras; leio jornais e livros…”.
Ao longo da tarde não podemos deixar de reparar no gosto que Melinha tem por si. Gosta de se arranjar, maquilhar, pentear, usar cores fortes e alegres na sua roupa. “Gosto de roupas à Primavera!”. Resumindo, gosta de manter-se viva e alegre para si e para o mundo.
Quando falamos daquilo que menos gosta, do que a deixa mais triste, não hesita em falar da rivalidade que existe entre as claques das equipas do Braga e Guimarães: “Fico triste com isso, não devia acontecer… Afinal, somos todos Minhotos!”.
Ver o Braga Campeão é, inevitavelmente, o seu maior sonho! Apesar de considerar algumas vezes a arbitragem injusta, a bracarense pode dizer que “já vi o meu Braga a comandar. Já estou satisfeita!”.
Melinha é uma mulher de força, ama a sua cidade. Ama aquilo que faz, inspira-se no clube do seu coração e continuar a acompanhá-lo é a sua maior certeza.

Adriana Correia
Diogo Costa

quarta-feira, 30 de maio de 2012


JOSÉ MANUEL MENDES

“Nunca me inspiro. Escrevo.”

No final de uma aula de Media e Cultura Contemporânea, que lecciona na Universidade do Minho, no campus de Gualtar, em Braga, José Manuel Mendes conversa com a acertada escolha de palavras que lhe é característica, à porta do auditório.
Ser docente nesta instituição é uma das circunstâncias que o ligam a Braga, onde reside, constituiu família e solidificou amizades. José Manuel Mendes afirma estar na cidade com gosto, apontando aspectos da paisagem física que o atraem e valorizando “uma comunidade, pessoas que me interessam”.
Na recordação de José Manuel Mendes, Braga guarda as vivências do tempo de construção e da festa do 25 de Abril. Com uma participação relevante no panorama político e cultural, o docente não destaca nenhum acontecimento em particular. “São tantos, que se torna um pouco impróprio, arbitrário e incontingente escolhê-los”. No entanto, refere com certezas e “particular satisfação” a sua contribuição para a construção de uma sociedade democrática e livre.
Sem determinar, remete-nos para a existência de vários pontos importantes, tanto de carácter privado como de natureza mais pública. José Manuel Mendes repara, em tom divertido, no seu nascimento: “O meu nascimento marca a minha vida”. E é também outro nascimento que especifica como marcante na sua vida: “um acontecimento inexpressável… o nascimento da minha filha e, claro, a sua existência”.
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, elegeu o ensino e a docência em detrimento da advocacia. Quando questionado relativamente à sua carreira, considerando as suas ligações ao ensino, à política, à cultura e à literatura, José Manuel Mendes é pronto a definir: “não tenho uma carreira, tenho um percurso. Tenho anos vividos e ao longo desses anos, um acervo de realizações, que valem mais ou menos aos meus próprios olhos, que aos olhos dos outros”.
Deste percurso de vida e das suas realizações tem igual dificuldade em distinguir, por serem tantas, as pessoas que merecem a sua admiração. Contudo, fala de José Saramago, “um dos amigos da minha vida” e de Fernando Namora.
O discurso de José Manuel Mendes parece ter tanto de natural como de reflectido. Parece constituir-se como um discurso naturalmente reflectido, que exprime com uma sonoridade e cadência características.
Ainda no mesmo auditório, sem janelas e onde predomina o tom castanho das escadas e o vermelho gasto das cadeiras, o também escritor e poeta fala-nos das suas obras. “Nunca me inspiro. Escrevo…”, diz sobre a sua poesia, que escreve como resultado de “uma ideia, uma música interior que nasce… ou junção destes elementos e do desejo de não rasgar de imediato estas sugestões iniciais, como diz o poeta Eugénio de Andrade”. Os versos vão surgindo, “naquilo que foi uma meditação qualquer” e mais tarde trabalhados para aquilo “a que se dá o nome de poesia”.

José Manuel Mendes


“Falta algo que toque por dentro, na essência das pessoas   e da cidade”

José Manuel Mendes defende que Braga deveria crescer e aproximar-se do nível de uma capital, mas não crê que tal situação se venha a verificar, apesar do rico património cultural da cidade. Importa continuar a valorizar o que já é reconhecido, mas também prestar atenção ao que ainda passa despercebido. “Eu, que mostrei esta cidade a centenas de pessoas, levei-as sempre a lugares que de certa maneira continuam a ser desconhecidos dos bracarenses: à Fonte do Ídolo ou a Nossa Senhora do Leite”.
Se tivesse de eleger um monumento favorito na nossa cidade, José Manuel Mendes optaria por aquele que ainda não foi construído. Respeitando a cidade, mantém a esperança de que Braga tenha “condições para continuar a inventar-se e, numa linguagem claramente centrada no futuro, não se enclausure apenas naquilo que já é”.
O poeta vê o evento Braga Capital Europeia da Juventude como uma oportunidade que se está a perder. Observador de tudo o que acontece à sua volta, cidadão activo e consciente, considera que Braga precisa de uma afirmação de juventude.
Para José Manuel Mendes, falta praticamente tudo à cidade. “Não nas infra-estruturas ou no renovamento de alguma paisagem urbana, mas algo que toque por dentro, na essência das pessoas e da cidade”.

Ana Sofia Dias
Diogo Costa

sábado, 19 de maio de 2012


CURIOSIDADE


      André Soares


André Soares foi um arquitecto do barroco rococó português. Nascido na cidade de Braga em 1720, o arquitecto viu o seu trabalho ignorado durante bastantes anos, muito por culpa da importância atribuída ao arquitecto Carlos Amarante.
A chegada de Robert Chester Smith, grande impulsionador do estilo rococó na Europa, permitiu a André Soares passar a ser conhecido como mestre nesta arte. Em Braga, as suas obras passam pela Capela de Santa Maria Madalena da Falperra, o edifício da Câmara Municipal de Braga, o Palácio do Raio, a Igreja do Congregados e o Arco da Porta Nova.
Com o seu nome atribuído ainda a uma escola na cidade dos Arcebispos, André Soares morreu em 1769, com 49 anos, permanecendo até hoje como um dos artistas mais ignorados no panorama da arte rocaille europeia.



Diogo Costa

domingo, 13 de maio de 2012

CURIOSIDADE


      Carlos Luís Ferreira Amarante


Carlos Luís Ferreira Amarante nasceu na cidade de Braga a 30  de Outubro de 1948. Aos 23 anos casou com Luísa Clara Xavier e foi nessa altura que se formou em arquitectura. As suas primeiras obras foram feitas na cidade de Braga, revelando-se mais tarde como um dos mais notáveis arquitectos da cidade no século XVIII. Esteve envolvido na construção de obras tão assinaláveis como o Bom Jesus, em Braga, a Igreja da Trindade, no Porto, o Hospital de São Marcos, a Reitoria da Universidade do Porto, entre outras. Aos 45 anos ingressou na vida militar, sendo nomeado segundo-tenente do Real Corpo de Engenheiros.
Carlos Amarante faleceu aos 66 anos (22 de Janeiro de 1815), na cidade do Porto, encontrando-se sepultado na Igreja da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade.

Liliana Moreira


quarta-feira, 2 de maio de 2012


OS RAMOS DE UMA TRADIÇÃO


     "Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É uma certeza"
 
No Bom Jesus de Braga o registo mais fiel, tradicional e completo é captado, em cinco minutos, pelas tonalidades do preto e branco, do escuro/claro da fotografia de Carlos Ramos. Com a sua objectiva de 105 anos, tira fotografias "à la minute" no Bom Jesus de Braga há mais de vinte e dois.
Durante o Inverno, Carlos Ramos e a sua esposa, Aida Ramos, que faz questão de o acompanhar, apenas fotografam nos feriados e fins-de-semana, quando o frio não é demasiado penoso e o Sol consegue raiar entre as torres do Santuário.
Pelo contrário, o trabalho é diário durante o Verão, estação agraciada pelo crescimento sazonal da população e pelo tempo quente do Sol incessante. De Julho até meados de Setembro, o casal está, com as máquinas centenárias, ao lado do Coreto ou em frente a uma das Capelas da Via Sacra do Bom Jesus.

Carlos Ramos

Luís Ramos 


Por acordo com Luís Ramos, o irmão de Carlos Ramos, que também aí trabalha, trocam de lugares todos os dias, para que nenhum se sinta injustiçado ou desfavorecido por causa do sítio estratégico em que se encontram.
Luís Ramos, de 54 anos, que fotografa há trinta e um no Bom Jesus, ensinou ao irmão com mais detalhe as técnicas que o pai fez questão de ensinar a todos os filhos. “Trabalhar com o Carlos é espectacular. Não há problema. Cada qual trabalha com a sua sorte. Um num local, outro noutro”.
Numa família de dez irmãos, cinco são fotógrafos: dois no Bom Jesus, um no Sameiro, um em Santa Luzia e um na Penha. Além destes, também alguns primos e cunhados conhecem a arte de fotografar com estas máquinas.
Os dois irmãos, que se dizem encantados pelo que fazem e não pensam em abandonar a actividade, reconhecem que nem sempre se dedicaram exclusivamente à fotografia. Enquanto Luís Ramos já trabalhou na construção civil e na restauração, Carlos Ramos, que tem o 1º ciclo, trabalhou por conta própria a pintar e a envernizar casas.
Aida Ramos, que completou o 2º ciclo de escolaridade, sempre apoiou o marido, mas nunca quis ou sentiu necessidade de aprender a fotografar desta forma centenária e tradicional. Talvez por isso compreenda a posição dos filhos, que não pretendem continuar o negócio do pai. “Os meus quatro filhos são jovens e neste momento são mais importantes os estudos. Além disso, desejo aos meus filhos uma estabilidade que este negócio já não consegue oferecer”.

Aida Ramos

Carlos, 51 anos, e Aida, 56 anos, recordam, com saudade, os tempos em que a fotografia em papel comum lhes garantia estabilidade e boa qualidade de vida. Hoje, o casal afirma que só está bem porque conseguiu “juntar algum dinheiro” das “boas coroas” que fizeram em tempos.
O fotógrafo não acredita que as novas tecnologias tenham feito esmorecer a tradição do retrato nas máquinas centenárias. “Eu tiro fotografias a pessoas que têm duas ou três boas máquinas penduradas ao pescoço. Mas, mesmo assim, elas pegam nos filhos e colocam-nos no cavalinho”. Carlos crê que o desemprego e a crise económica no país são os grandes culpados.
Não existe um tipo de pessoas específico que solicitem uma fotografia a Carlos Ramos: “Tanto me abordam pessoas da classe alta, média ou baixa”. No entanto, são mais os curiosos e observadores do que os clientes.
A figura do cavalinho é indissociável deste tipo de fotografia tradicional. Carlos Ramos tem três cavalos: dois guardados em sua casa e um que usa actualmente para trabalhar. Carlos orgulha-se de ter sido ele a construir os cavalinhos, que guarda religiosamente em casa, reaproveitando materiais.
As fotografias já são captadas por Carlos Ramos com a mesma facilidade com que explica o complexo processo. As suas duas máquinas têm funções diferentes: enquanto a primeira é a que capta o cliente através do negativo, a segunda destina-se a fazer o positivo. Sempre tendo em atenção a luz e o tempo de focagem, é tirada, com a segunda máquina, uma fotografia ao negativo, que se transformará na fotografia final. Esta é mergulhada durante uns segundos em água, para retirar as impurezas. Caso contrário, com o tempo, a fotografia amarelece e a imagem dissolve-se.
Quem vem ao Bom Jesus espera encontrar Carlos Ramos atento às suas máquinas e ao cavalinho. Espera ver Aida Ramos ao lado do marido, sorrindo para quem passa, cumprimentando uma outra pessoa e aliciando possíveis clientes, com o croché na mão. Espera olhar para a capela e constatar que também aí está Luís Ramos, envolvido no processo de fotografar alguém.
Como se os fotógrafos fizessem parte da paisagem e da beleza do Bom Jesus de Braga, a sua ausência é imediatamente sentida. “Há muitas pessoas que até perguntam aqui nos cafés se já desistimos da actividade, quando não nos encontram. Sentem mesmo a nossa falta”, adianta Carlos Ramos.
No entanto, o casal mostra-se optimista: “Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É uma certeza”.



Ana Sofia Dias
Adriana Correia 


terça-feira, 1 de maio de 2012



CURIOSIDADE

Guilherme Braga de Cruz

Guilherme Braga de Cruz nasceu em Braga, a 11 de Junho de 1916 e faleceu a 11 de Março de 1977.
Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, tornou-se Director da Faculdade de Direito, vindo mais tarde ser Reitor da mesma Universidade.
Braga de Cruz participou na reforma do Código Civil, no capítulo das leis da família, assunto que tratou na sua tese de doutoramento.
Do seu casamento com D. Ofélia Garcia teve nove filhos. Devoto cristão, ficou conhecido pela sua rectidão de carácter e solidariedade para com os mais necessitados. As suas tão honradas acções levaram o Rev. Professor Doutor Avelino de Jesus da Costa a questionar se este não merecia “o Altar”. Na actualidade, dá nome a uma rua na freguesia de São Victor.
Cargos exercidos: Reitor da Universidade de Coimbra; Director da Faculdade de Direito; Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra; Consultor Jurídico do Conselho da Nobreza; Vogal da Junta Nacional de Educação; Vice-Presidente da Câmara Corporativa; Membro da Comissão Redactora do Código Civil; Advogado de Portugal no pleito contra a União Indiana, sobre o direito de passagem por território indiano, no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia.


Liliana Moreira