quarta-feira, 30 de maio de 2012


JOSÉ MANUEL MENDES

“Nunca me inspiro. Escrevo.”

No final de uma aula de Media e Cultura Contemporânea, que lecciona na Universidade do Minho, no campus de Gualtar, em Braga, José Manuel Mendes conversa com a acertada escolha de palavras que lhe é característica, à porta do auditório.
Ser docente nesta instituição é uma das circunstâncias que o ligam a Braga, onde reside, constituiu família e solidificou amizades. José Manuel Mendes afirma estar na cidade com gosto, apontando aspectos da paisagem física que o atraem e valorizando “uma comunidade, pessoas que me interessam”.
Na recordação de José Manuel Mendes, Braga guarda as vivências do tempo de construção e da festa do 25 de Abril. Com uma participação relevante no panorama político e cultural, o docente não destaca nenhum acontecimento em particular. “São tantos, que se torna um pouco impróprio, arbitrário e incontingente escolhê-los”. No entanto, refere com certezas e “particular satisfação” a sua contribuição para a construção de uma sociedade democrática e livre.
Sem determinar, remete-nos para a existência de vários pontos importantes, tanto de carácter privado como de natureza mais pública. José Manuel Mendes repara, em tom divertido, no seu nascimento: “O meu nascimento marca a minha vida”. E é também outro nascimento que especifica como marcante na sua vida: “um acontecimento inexpressável… o nascimento da minha filha e, claro, a sua existência”.
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, elegeu o ensino e a docência em detrimento da advocacia. Quando questionado relativamente à sua carreira, considerando as suas ligações ao ensino, à política, à cultura e à literatura, José Manuel Mendes é pronto a definir: “não tenho uma carreira, tenho um percurso. Tenho anos vividos e ao longo desses anos, um acervo de realizações, que valem mais ou menos aos meus próprios olhos, que aos olhos dos outros”.
Deste percurso de vida e das suas realizações tem igual dificuldade em distinguir, por serem tantas, as pessoas que merecem a sua admiração. Contudo, fala de José Saramago, “um dos amigos da minha vida” e de Fernando Namora.
O discurso de José Manuel Mendes parece ter tanto de natural como de reflectido. Parece constituir-se como um discurso naturalmente reflectido, que exprime com uma sonoridade e cadência características.
Ainda no mesmo auditório, sem janelas e onde predomina o tom castanho das escadas e o vermelho gasto das cadeiras, o também escritor e poeta fala-nos das suas obras. “Nunca me inspiro. Escrevo…”, diz sobre a sua poesia, que escreve como resultado de “uma ideia, uma música interior que nasce… ou junção destes elementos e do desejo de não rasgar de imediato estas sugestões iniciais, como diz o poeta Eugénio de Andrade”. Os versos vão surgindo, “naquilo que foi uma meditação qualquer” e mais tarde trabalhados para aquilo “a que se dá o nome de poesia”.

José Manuel Mendes


“Falta algo que toque por dentro, na essência das pessoas   e da cidade”

José Manuel Mendes defende que Braga deveria crescer e aproximar-se do nível de uma capital, mas não crê que tal situação se venha a verificar, apesar do rico património cultural da cidade. Importa continuar a valorizar o que já é reconhecido, mas também prestar atenção ao que ainda passa despercebido. “Eu, que mostrei esta cidade a centenas de pessoas, levei-as sempre a lugares que de certa maneira continuam a ser desconhecidos dos bracarenses: à Fonte do Ídolo ou a Nossa Senhora do Leite”.
Se tivesse de eleger um monumento favorito na nossa cidade, José Manuel Mendes optaria por aquele que ainda não foi construído. Respeitando a cidade, mantém a esperança de que Braga tenha “condições para continuar a inventar-se e, numa linguagem claramente centrada no futuro, não se enclausure apenas naquilo que já é”.
O poeta vê o evento Braga Capital Europeia da Juventude como uma oportunidade que se está a perder. Observador de tudo o que acontece à sua volta, cidadão activo e consciente, considera que Braga precisa de uma afirmação de juventude.
Para José Manuel Mendes, falta praticamente tudo à cidade. “Não nas infra-estruturas ou no renovamento de alguma paisagem urbana, mas algo que toque por dentro, na essência das pessoas e da cidade”.

Ana Sofia Dias
Diogo Costa

Nenhum comentário:

Postar um comentário