JOSÉ MANUEL MENDES
“Nunca me inspiro. Escrevo.”
No
final de uma aula de Media e Cultura Contemporânea, que lecciona na
Universidade do Minho, no campus de Gualtar, em Braga, José Manuel Mendes
conversa com a acertada escolha de palavras que lhe é característica, à porta
do auditório.
Ser
docente nesta instituição é uma das circunstâncias que o ligam a Braga, onde
reside, constituiu família e solidificou amizades. José Manuel Mendes afirma
estar na cidade com gosto, apontando aspectos da paisagem física que o atraem e
valorizando “uma comunidade, pessoas que me interessam”.
Na
recordação de José Manuel Mendes, Braga guarda as vivências do tempo de construção
e da festa do 25 de Abril. Com uma participação relevante no panorama político
e cultural, o docente não destaca nenhum acontecimento em particular. “São
tantos, que se torna um pouco impróprio, arbitrário e incontingente escolhê-los”.
No entanto, refere com certezas e “particular satisfação” a sua contribuição
para a construção de uma sociedade democrática e livre.
Sem
determinar, remete-nos para a existência de vários pontos importantes, tanto de
carácter privado como de natureza mais pública. José Manuel Mendes repara, em
tom divertido, no seu nascimento: “O meu nascimento marca a minha vida”. E é
também outro nascimento que especifica como marcante na sua vida: “um
acontecimento inexpressável… o nascimento da minha filha e, claro, a sua
existência”.
Licenciado
em Direito pela Universidade de Coimbra, elegeu o ensino e a docência em
detrimento da advocacia. Quando questionado relativamente à sua carreira, considerando
as suas ligações ao ensino, à política, à cultura e à literatura, José Manuel
Mendes é pronto a definir: “não tenho uma carreira, tenho um percurso. Tenho
anos vividos e ao longo desses anos, um acervo de realizações, que valem mais
ou menos aos meus próprios olhos, que aos olhos dos outros”.
Deste
percurso de vida e das suas realizações tem igual dificuldade em distinguir,
por serem tantas, as pessoas que merecem a sua admiração. Contudo, fala de José
Saramago, “um dos amigos da minha vida” e de Fernando Namora.
O
discurso de José Manuel Mendes parece ter tanto de natural como de reflectido. Parece
constituir-se como um discurso naturalmente reflectido, que exprime com uma
sonoridade e cadência características.
Ainda
no mesmo auditório, sem janelas e onde predomina o tom castanho das escadas e o
vermelho gasto das cadeiras, o também escritor e poeta fala-nos das suas obras.
“Nunca me inspiro. Escrevo…”, diz sobre a sua poesia, que escreve como
resultado de “uma ideia, uma música interior que nasce… ou junção destes
elementos e do desejo de não rasgar de imediato estas sugestões iniciais, como
diz o poeta Eugénio de Andrade”. Os versos vão surgindo, “naquilo que foi uma
meditação qualquer” e mais tarde trabalhados para aquilo “a que se dá o nome de
poesia”.
“Falta algo que
toque por dentro, na essência das pessoas e da cidade”
José
Manuel Mendes defende que Braga deveria crescer e aproximar-se do nível de uma
capital, mas não crê que tal situação se venha a verificar, apesar do rico património
cultural da cidade. Importa continuar a valorizar o que já é reconhecido, mas
também prestar atenção ao que ainda passa despercebido. “Eu, que mostrei esta
cidade a centenas de pessoas, levei-as sempre a lugares que de certa maneira
continuam a ser desconhecidos dos bracarenses: à Fonte do Ídolo ou a Nossa
Senhora do Leite”.
Se
tivesse de eleger um monumento favorito na nossa cidade, José Manuel Mendes
optaria por aquele que ainda não foi construído. Respeitando a cidade, mantém a
esperança de que Braga tenha “condições para continuar a inventar-se e, numa
linguagem claramente centrada no futuro, não se enclausure apenas naquilo que
já é”.
O
poeta vê o evento Braga Capital Europeia da Juventude como uma oportunidade que
se está a perder. Observador de tudo o que acontece à sua volta, cidadão activo
e consciente, considera que Braga precisa de uma afirmação de juventude.
Para
José Manuel Mendes, falta praticamente tudo à cidade. “Não nas infra-estruturas
ou no renovamento de alguma paisagem urbana, mas algo que toque por dentro, na
essência das pessoas e da cidade”.
Ana Sofia Dias
Diogo Costa

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