OS RAMOS DE UMA TRADIÇÃO
"Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É uma certeza"
No Bom Jesus de Braga o registo mais fiel, tradicional e completo é
captado, em cinco minutos, pelas tonalidades do preto e branco, do escuro/claro
da fotografia de Carlos Ramos. Com a sua objectiva de 105 anos, tira
fotografias "à la minute" no Bom Jesus de Braga há mais de vinte e
dois.
Durante o Inverno, Carlos Ramos e a sua esposa, Aida Ramos, que faz
questão de o acompanhar, apenas fotografam nos feriados e fins-de-semana,
quando o frio não é demasiado penoso e o Sol consegue raiar entre as torres do Santuário.
Pelo contrário, o trabalho é diário durante o Verão, estação agraciada
pelo crescimento sazonal da população e pelo tempo quente do Sol incessante. De
Julho até meados de Setembro, o casal está, com as máquinas centenárias, ao
lado do Coreto ou em frente a uma das Capelas da Via Sacra do Bom Jesus.
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| Carlos Ramos |
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| Luís Ramos |
Por acordo com Luís Ramos, o irmão de Carlos Ramos, que também aí
trabalha, trocam de lugares todos os dias, para que nenhum se sinta injustiçado
ou desfavorecido por causa do sítio estratégico em que se encontram.
Luís Ramos, de 54 anos, que fotografa há trinta e um no Bom Jesus,
ensinou ao irmão com mais detalhe as técnicas que o pai fez questão de ensinar
a todos os filhos. “Trabalhar com o Carlos é espectacular. Não há problema.
Cada qual trabalha com a sua sorte. Um num local, outro noutro”.
Numa família de dez irmãos, cinco são
fotógrafos: dois no Bom Jesus, um no Sameiro, um em Santa Luzia e um na Penha.
Além destes, também alguns primos e cunhados conhecem a arte de fotografar com
estas máquinas.
Os dois irmãos, que se dizem encantados pelo que fazem e não pensam em
abandonar a actividade, reconhecem que nem sempre se dedicaram exclusivamente à
fotografia. Enquanto Luís Ramos já trabalhou na construção civil e na
restauração, Carlos Ramos, que tem o 1º ciclo, trabalhou por conta própria a
pintar e a envernizar casas.
Aida Ramos, que completou o 2º ciclo de
escolaridade, sempre apoiou o marido, mas nunca quis ou sentiu necessidade de
aprender a fotografar desta forma centenária e tradicional. Talvez por isso
compreenda a posição dos filhos, que não pretendem continuar o negócio do pai.
“Os meus quatro filhos são jovens e neste momento são mais importantes os
estudos. Além disso, desejo aos meus filhos uma estabilidade que este negócio
já não consegue oferecer”.
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| Aida Ramos |
Carlos, 51 anos, e Aida, 56 anos, recordam, com saudade, os tempos em
que a fotografia em papel comum lhes garantia estabilidade e boa qualidade de
vida. Hoje, o casal afirma que só está bem porque conseguiu “juntar algum
dinheiro” das “boas coroas” que fizeram em tempos.
O fotógrafo não acredita que as novas tecnologias tenham feito esmorecer a tradição
do retrato nas máquinas centenárias. “Eu tiro fotografias a pessoas que têm
duas ou três boas máquinas penduradas ao pescoço. Mas, mesmo assim, elas pegam
nos filhos e colocam-nos no cavalinho”. Carlos crê que o desemprego e a crise
económica no país são os grandes culpados.
Não existe um
tipo de pessoas específico que solicitem uma fotografia a Carlos Ramos: “Tanto
me abordam pessoas da classe alta, média ou baixa”. No entanto, são mais os
curiosos e observadores do que os clientes.
A figura do cavalinho é indissociável
deste tipo de fotografia tradicional. Carlos Ramos tem três cavalos: dois
guardados em sua casa e um que usa actualmente para trabalhar. Carlos
orgulha-se de ter sido ele a construir os cavalinhos, que guarda religiosamente
em casa, reaproveitando materiais.
As fotografias já são captadas por
Carlos Ramos com a mesma facilidade com que explica o complexo processo. As
suas duas máquinas têm funções diferentes: enquanto a primeira é a que capta o
cliente através do negativo, a segunda destina-se a fazer o positivo. Sempre
tendo em atenção a luz e o tempo de focagem, é tirada, com a segunda máquina,
uma fotografia ao negativo, que se transformará na fotografia final. Esta é
mergulhada durante uns segundos em água, para retirar as impurezas. Caso
contrário, com o tempo, a fotografia amarelece e a imagem dissolve-se.
Quem vem ao Bom Jesus espera encontrar
Carlos Ramos atento às suas máquinas e ao cavalinho. Espera ver Aida Ramos ao
lado do marido, sorrindo para quem passa, cumprimentando uma outra pessoa e
aliciando possíveis clientes, com o croché na mão. Espera olhar para a capela e
constatar que também aí está Luís Ramos, envolvido no processo de fotografar
alguém.
Como se os
fotógrafos fizessem parte da paisagem e da beleza do Bom Jesus de Braga, a sua
ausência é imediatamente sentida. “Há muitas pessoas que até perguntam aqui nos
cafés se já desistimos da actividade, quando não nos encontram. Sentem mesmo a
nossa falta”, adianta Carlos Ramos.
No entanto, o
casal mostra-se optimista: “Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É
uma certeza”.
Ana Sofia Dias
Adriana Correia




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