quarta-feira, 2 de maio de 2012


OS RAMOS DE UMA TRADIÇÃO


     "Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É uma certeza"
 
No Bom Jesus de Braga o registo mais fiel, tradicional e completo é captado, em cinco minutos, pelas tonalidades do preto e branco, do escuro/claro da fotografia de Carlos Ramos. Com a sua objectiva de 105 anos, tira fotografias "à la minute" no Bom Jesus de Braga há mais de vinte e dois.
Durante o Inverno, Carlos Ramos e a sua esposa, Aida Ramos, que faz questão de o acompanhar, apenas fotografam nos feriados e fins-de-semana, quando o frio não é demasiado penoso e o Sol consegue raiar entre as torres do Santuário.
Pelo contrário, o trabalho é diário durante o Verão, estação agraciada pelo crescimento sazonal da população e pelo tempo quente do Sol incessante. De Julho até meados de Setembro, o casal está, com as máquinas centenárias, ao lado do Coreto ou em frente a uma das Capelas da Via Sacra do Bom Jesus.

Carlos Ramos

Luís Ramos 


Por acordo com Luís Ramos, o irmão de Carlos Ramos, que também aí trabalha, trocam de lugares todos os dias, para que nenhum se sinta injustiçado ou desfavorecido por causa do sítio estratégico em que se encontram.
Luís Ramos, de 54 anos, que fotografa há trinta e um no Bom Jesus, ensinou ao irmão com mais detalhe as técnicas que o pai fez questão de ensinar a todos os filhos. “Trabalhar com o Carlos é espectacular. Não há problema. Cada qual trabalha com a sua sorte. Um num local, outro noutro”.
Numa família de dez irmãos, cinco são fotógrafos: dois no Bom Jesus, um no Sameiro, um em Santa Luzia e um na Penha. Além destes, também alguns primos e cunhados conhecem a arte de fotografar com estas máquinas.
Os dois irmãos, que se dizem encantados pelo que fazem e não pensam em abandonar a actividade, reconhecem que nem sempre se dedicaram exclusivamente à fotografia. Enquanto Luís Ramos já trabalhou na construção civil e na restauração, Carlos Ramos, que tem o 1º ciclo, trabalhou por conta própria a pintar e a envernizar casas.
Aida Ramos, que completou o 2º ciclo de escolaridade, sempre apoiou o marido, mas nunca quis ou sentiu necessidade de aprender a fotografar desta forma centenária e tradicional. Talvez por isso compreenda a posição dos filhos, que não pretendem continuar o negócio do pai. “Os meus quatro filhos são jovens e neste momento são mais importantes os estudos. Além disso, desejo aos meus filhos uma estabilidade que este negócio já não consegue oferecer”.

Aida Ramos

Carlos, 51 anos, e Aida, 56 anos, recordam, com saudade, os tempos em que a fotografia em papel comum lhes garantia estabilidade e boa qualidade de vida. Hoje, o casal afirma que só está bem porque conseguiu “juntar algum dinheiro” das “boas coroas” que fizeram em tempos.
O fotógrafo não acredita que as novas tecnologias tenham feito esmorecer a tradição do retrato nas máquinas centenárias. “Eu tiro fotografias a pessoas que têm duas ou três boas máquinas penduradas ao pescoço. Mas, mesmo assim, elas pegam nos filhos e colocam-nos no cavalinho”. Carlos crê que o desemprego e a crise económica no país são os grandes culpados.
Não existe um tipo de pessoas específico que solicitem uma fotografia a Carlos Ramos: “Tanto me abordam pessoas da classe alta, média ou baixa”. No entanto, são mais os curiosos e observadores do que os clientes.
A figura do cavalinho é indissociável deste tipo de fotografia tradicional. Carlos Ramos tem três cavalos: dois guardados em sua casa e um que usa actualmente para trabalhar. Carlos orgulha-se de ter sido ele a construir os cavalinhos, que guarda religiosamente em casa, reaproveitando materiais.
As fotografias já são captadas por Carlos Ramos com a mesma facilidade com que explica o complexo processo. As suas duas máquinas têm funções diferentes: enquanto a primeira é a que capta o cliente através do negativo, a segunda destina-se a fazer o positivo. Sempre tendo em atenção a luz e o tempo de focagem, é tirada, com a segunda máquina, uma fotografia ao negativo, que se transformará na fotografia final. Esta é mergulhada durante uns segundos em água, para retirar as impurezas. Caso contrário, com o tempo, a fotografia amarelece e a imagem dissolve-se.
Quem vem ao Bom Jesus espera encontrar Carlos Ramos atento às suas máquinas e ao cavalinho. Espera ver Aida Ramos ao lado do marido, sorrindo para quem passa, cumprimentando uma outra pessoa e aliciando possíveis clientes, com o croché na mão. Espera olhar para a capela e constatar que também aí está Luís Ramos, envolvido no processo de fotografar alguém.
Como se os fotógrafos fizessem parte da paisagem e da beleza do Bom Jesus de Braga, a sua ausência é imediatamente sentida. “Há muitas pessoas que até perguntam aqui nos cafés se já desistimos da actividade, quando não nos encontram. Sentem mesmo a nossa falta”, adianta Carlos Ramos.
No entanto, o casal mostra-se optimista: “Enquanto cá estivermos esta tradição não acaba. É uma certeza”.



Ana Sofia Dias
Adriana Correia 


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